segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Pretérito (im) Perfeito

Sabe o que me irrita? O que me dá nos nervos? O que me faz pensar em todos os métodos de respirações conscientes e profundas possíveis? O passado. E não o meu.

É, justo eu  que sou uma ótima controladora do ciúme, que sempre inspiro racionalidade nessas malditas ocasiões e ajo como um completo sábio: enrugado, barbudo e grisalho. Cheia de seguranças e certezas. Mas o passado… O passado é diferente. O próprio nome já incomoda. Foi efetivo, aconteceu. Não é coisa da minha cabeça, não é a neurose feminina fantasiando e se enganando. Aconteceu.

Ele já usou deste charme, é, desse aí mesmo, que não é só você quem conhece. Deixa de ser boba.  Já foi loira, morena e ruiva, já beijou com desejo,  já as despiu na cama dele, já escorreu as pontas dos dedos e pelas costas nuas, virgens e desavisadas delas, já fez com que se sentissem especiais mesmo que por um mísero segundo de momento, já foi amores e desamores e, principalmente, já quis ter dado certo com alguém. Já chorou e sofreu por isso. Calma. Como assim? Como assim já roubaram o coração dele uma vez? Ou até mais de uma vez ? Como assim ele tem antigos casos sérios escondidos numa caixinha de lembranças? É só que… nós somos tão… nós… 


Uma jornada tão rica, um presente tão futuro, que eu me surpreendo quando lembro que as tuas horas já foram de outras. Me pego matutando sobre o que de fato aconteceu. Curiosidade, aquela auto-flagelação de curiosidade. E aí, como se não bastasse, imagino os elogios, o que você mais gostava nelas, o que achava bonito. Por dentro e por fora. Imagino se elas se pareciam comigo… Se tinham algo de mim. Se têm algo de mim. E o cheiro? Era cheiro de pele ou cheiro de pele mascarada com perfume? Era cheiro de gente ou cheiro comprado? Porque o segundo a gente confunde. O primeiro é único. Do que vocês falavam? Aliás, vocês dialogavam? Compartilhavam devaneios, receios e anseios? Elas te faziam rir? Não sorrir. Rir. Gargalhar e cantarolar pela vida com a leveza e a serenidade da paz de espírito inundando a alma.


Não interessa, na verdade. No fim das contas, elas já te tocaram. Cutucaram, sentiram. Aninharam. Elas já te conheceram ou assim pensaram, já consideraram delas o que hoje é meu. Sim. É meu. Meu mundo. E não tem devolução, não tem volta. Sou eu que na vida vou com você agora.

Mas o Mundo ainda não é feito só do nosso, e remanescem por aí passados vivos. Estigmas, cicatrizes e saudades. Compreensível, porque julgo improvável, talvez impossível, te superar. Te esquecer, fazer-te pó. Sei da tua capacidade de despretensiosamente marcar a vida alheia. Sei que tua passagem pelos caminhos de alguém não é apenas uma passagem, você é que não sabe, meu amor. Você é que não sabe quantos pedaços delas ficaram pelos cantos e recantos. Dizem que a alma se recupera, eu nunca vi alma se recuperar da perda d’alma. E talvez seja isso que me irrite, essa história de que alguém te amar tanto quanto eu. Porque o Pretérito Perfeito não tem relevância, não diante de nós dois. É como uma chuva de verão. Ou um cão que ladra, mas não morde.

E, em mim, a mesquinhez instintiva do ciúme.


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